DEPRECIAÇÃO DE VEÍCULOS REPENSANDO

DEPRECIAÇÃO DE VEÍCULOS REPENSANDO

Depreciação de veículos é um assunto normalmente ignorado, quando falamos em cálculo de fretes. Isso acontece principalmente com os caminhoneiros autônomos, e você saber por quê?

A desculpa que eu mais ouço é que a coisa já está feia, e que se for para colocar este custo “extra”, o preço do frete acabará se tornando quase inviável para competir no mercado.

O problema é que não dá para calcular corretamente todas os seus custos, na categoria de transporte rodoviário de cargas, sem considerar a depreciação de veículos.

Tente imaginar, e entender, que um dia você precisará trocar de caminhão, ou renovar a sua frota, e aí como faz? Financia um novo? Compra um usado? Deixa de trocar o seu veículo e arca com as manutenções?

Ao longo do artigo, eu vou te explicar melhor por que você precisa levar em consideração, sempre, a depreciação de veículos, enquanto você trabalhar com transportes de cargas.

Portanto, se você quer dominar a arte de calcular fretes da forma correta, principalmente incluindo a depreciação de veículos, continue lendo este artigo. Nele vamos falar sobre:

  1. Que raios realmente é depreciação de veículos? Qual o conceito disso?
  2. Como fazer o cálculo corretamente?
  3. Qual a diferença da depreciação contábil para a gerencial?
  4. Que tabela de taxas de depreciação os contadores usam?
  5. Quais os tempos de depreciação de veículos que o mercado usa?
  6. Por que você deve usar a tabela FIPE como referência?
  7. Exemplo prático de depreciação pela tabela FIPE.

DEPRECIAÇÃO DE VEÍCULOS: CONCEITO

 

 

 

 

 

 

Entender exatamente o que significa depreciação é um primeiro passo, e muito importante por sinal.

Se você procurar no dicionário Aurélio, vai descobrir que depreciação significa desvalorização.

Quando trazemos isso para o universo dos transportes, depreciação significa que dia após dia a sua frota está perdendo valor, e que um dia você precisará trocar os veículos.

Você não vai trocar um veículo simplesmente porque ele perdeu valor, você irá troca-lo porque após um período as chances de quebra na estrada e perda de produtividade serão maiores.

Agora vamos simular uma situação que pode ter acontecido com você:

Suponhamos que você tenha recebido uma herança, e que com esse dinheiro você tenha comprado um Volvo FH 440 novinho em folha, zero quilômetro, e tenha pago por ele R$ 290 mil + R$ 70 mil pelo semirreboque.

Começou a trabalhar com este caminhão, e o preço cobrado do frete nunca incluiu a depreciação de veículos no cálculo.

Após 5 anos de uso do caminhão, você decide trocá-lo por um novo, mas você não fez qualquer reserva de caixa para a compra desse caminhão novo.

Aí eu te pergunto:

  • Foi um bom negócio para você ter trabalhado por 5 anos com um bem que valia R$ 360 mil, e agora só vale R$ 200 mil?
  • Como você vai fazer para comprar agora um veículo zero quilômetro? Vai dar esse de entrada e financiar o restante? (Lembre-se que você tinha o dinheiro de um veículo inteiro, e não precisava financiar nada)
  • Será mesmo que não é justo cobrar um adicional no frete pela depreciação do seu veículo?

É exatamente por isso que existe a depreciação, para que você possa considerar que o seu veículo não é eterno e, uma hora ele precisará ser trocado.

Portanto considerar a depreciação na hora de você fazer o cálculo de fretes é fundamental.

COMO FAZER O CÁLCULO CORRETAMENTE

Existem algumas formas que você pode utilizar para fazer o cálculo da depreciação do seu caminhão ou da sua frota.

O jeito mais fácil de pensar em cálculo de depreciação é imaginar quando você irá trocar o seu veículo e o implemento rodoviário (semirreboque, caçamba, furgão, carroceria).

Então vamos lá, para esse exercício vamos pegar o mesmo veículo que eu citei na parte de cima do texto.

  • FH 440 ano 2011 comprado zero km: R$ 290 mil
  • Semirreboque ano 2011 comprado zero km: R$ 70 mil
  • Tempo para troca do veículo: 5 anos (esse tempo é um exemplo, poderia ser mais ou menos tempo sem problemas)
  • FH 440 ano 2011 para venda em 2016: R$ 165 mil
  • Semirreboque ano 2011 para venda em 2016: R$ 34 mil

Neste exemplo, o veículo completo teve uma desvalorização de R$ 161 mil ao longo de 5 anos.

Para que você possa considerar essa desvalorização como um custo fixo mensal, é preciso pegar este valor e dividir por 60 meses (5 anos).

Depreciação = ([valor de compra] – [valor de venda]) / [tempo]

Depreciação = (R$ 360 mil – R$ 199 mil) / 60 meses

Depreciação = R$ 2.683,33 por mês

Sim, eu sei que esse valor é bem alto, mas isso é quanto esse veículo está se desvalorizando todo mês, e por isso alguém tem que pagar essa conta.

Se não for o seu cliente, será você.

DEPRECIAÇÃO CONTÁBIL E GERENCIAL

O cálculo que te expliquei logo acima é do tipo gerencial, ou seja, é um jeito informal e prático para você saber quanto de depreciação sua frota sofre mensalmente.

É muito simples de usar e você pode considerar o valor como um custo fixo mensal na hora de fazer o seu cálculo de frete.

Porém, você pode querer usar no lugar da depreciação gerencial, a depreciação contábil.

Para que você não se sinta confuso, eu resolvi colocar aqui também este método, porque assim você entende a diferença entre ambas.

A depreciação contábil é muito utilizada por médias e grandes empresas, porque estas trabalham em um regime fiscal diferente das pequenas empresas e dos caminhoneiros autônomos.

Existe uma tabela de depreciação, estabelecida pela Receita Federal.

Veículos Taxa de depreciação Prazo
Tratores 25% ao ano 04 anos
Veículos de passageiros 20% ao ano 05 anos
Veículos de carga 20% ao ano 05 anos
Caminhões fora-de-estrada 25% ao ano 04 anos
Motociclos 25% ao ano 04 anos

Na depreciação contábil, é importante frisar que existe um valor residual, ou seja, ao final do tempo de depreciação, o veículo é contabilizado por um percentual pré-estabelecido, e não pelo seu valor real de mercado.

Usando ainda como exemplo o veículo Volvo FH 440 que citei acima, vamos ver como ele ficaria se fosse calculada a depreciação contábil.

  • FH 440 ano 2011 comprado zero km: R$ 290 mil
  • Semirreboque ano 2011 comprado zero km: R$ 70 mil
  • Tempo de depreciação contábil deste veículo: 5 anos
  • Taxa de valor residual para veículos de carga: 20%
  • Valor residual do caminhão ao final da depreciação: R$ 58 mil
  • Valor residual do semirreboque ao final da depreciação: R$ 14 mil

É óbvio que as médias e grandes empresas, que usam a depreciação contábil, não irão vender esses bens pelos valores citados no exemplo, isso serve para:

  • Fazer o cálculo do frete a ser cobrado do cliente
  • Fins de imposto de renda das empresas

Porém eu acho que muitas vezes estes valores acabam fugindo muito da realidade que vivemos.

TAXAS DE DEPRECIAÇÃO USADAS POR CONTADORES

 

Não são só os veículos que seguem uma tabela com taxas e tempos de depreciação, muitos outros ativos das empresas seguem o mesmo padrão.

Isto é muito importante porque coloca a depreciação como um fator fundamental em qualquer empresa que queira fazer uma boa gestão de seus bens.

 

A tabela de depreciação determina um tempo de vida útil de cada ativo, estipulando (em teoria) quando a empresa deverá trocar por um novo, além de quanto ela precisará reservar para poder fazer isso.

 

Mas vamos lá, quais outros ativos podemos considerar como depreciáveis, e qual é a taxa e tempo de depreciação de cada um?

Bens Taxa de Depreciação Prazo
Móveis e Utensílios 10% ao ano 10 anos
Máquinas e Equipamentos 10% ao ano 10 anos
Computadores e periféricos 20% ao ano 05 anos
Edificações 04% ao ano 25 anos
Terrenos Não sofre Depreciação 00 anos
Instalações 10% ao ano 10 anos

Com as duas tabelas citadas, a de veículos e os demais bens, qualquer contador poderá determinar a depreciação de praticamente qualquer bem dentro de uma empresa.

TEMPO DE DEPRECIAÇÃO DE VEÍCULOS

 

Trazendo para o nosso mercado, o de transporte rodoviário de cargas, talvez você não possa considerar a depreciação contábil como um fator de cálculo para entender esse custo fixo.

Isso porque, se levarmos em conta essa prática, precisaríamos considerar que um veículo valeria apenas 20% do seu valor de compra após 5 anos.

Pegando novamente o exemplo do Volvo FH 440, vamos entender quanto de custo fixo mensal você teria se considerasse a depreciação contábil.

  • Valor de compra do FH 440 ano 2011: R$ 290 mil
  • Valor de compra do semirreboque ano 2011: R$ 70 mil
  • Valor residual do caminhão ao final da depreciação: R$ 58 mil
  • Valor residual do semirreboque ao final da depreciação: R$ 14 mil
  • Valor depreciado dos dois veículos ao final de 5 anos: R$ 288 mil
  • Custo mensal fixo de depreciação: R$ 4,8 mil

Veja que este valor de R$ 4,8 mil por mês é impraticável, ainda mais com a condição financeira do país e da categoria de transportes.

Nenhuma empresa, por maior que seja, consegue embutir um custo fixo mensal nesse valor e ainda conseguir lucrar com a atividade.

Valores práticos de mercado

É por isso que você precisa trabalhar conforme a prática de mercado, ou seja, entender que um caminhão tem uma vida útil maior que 5 anos, e que o seu valor residual é maior que 20% ao final de 60 meses.

A verdade é que a frota brasileira tem uma idade média de 9,6 anos entre as empresas, e de 17,6 anos entre os caminhoneiros autônomos, o que não é legal por ser um risco nas estradas, mas demonstra como a depreciação contábil de 5 anos apenas está fora de contexto.

Para efeito de cálculo, eu sugiro que você sempre trabalhe com uma média entre:

  • 8 e 10 anos para veículos pesados
  • 7 e 9 anos para veículos semipesados
  • 5 e 7 anos para veículos leves

USANDO A TABELA FIPE COMO REFERÊNCIA

A tabela FIPE pode ser uma excelente referência quando o assunto é depreciação de veículos, e você sabe por quê?

Imagine que existem inúmeros fatores que podem influenciar o preço de um veículo, desde o lançamento de um modelo novo pelo fabricante, até questões de mercado como concorrência e baixa demanda, como estamos vivendo atualmente.

A tabela FIPE irá te mostrar números médios reais, com base no que está acontecendo de fato no mercado, e assim você poderá calcular a real depreciação do seu veículo, sendo justo com o seu cliente e com você mesmo.

Com a facilidade da internet, estes números estão a um clique, e você pode facilmente pesquisar o seu veículo, ano a ano, mês a mês, e definir a depreciação.

É claro que você não irá pesquisar todo mês para definir o seu custo fixo de depreciação, a ideia é que a tabela FIPE possa ser uma referência, e assim você defina um valor fixo mensal que constará todos os meses na sua planilha de cálculo de fretes.

EXEMPLO PRÁTICO DE DEPRECIAÇÃO PELA TABELA FIPE

Estou, desde o início, falando do Volvo FH 440, não é mesmo? Não poderia deixar de usá-lo agora como o exemplo prático.

Busquei no site da FIPE os valores mês a mês deste modelo de veículo (FH 440 4×2 2p), desde junho de 2011 até junho de 2016, e o resultado foi o seguinte:

A última coluna mostra, teoricamente, quanto você deveria embutir de custo fixo com depreciação por mês do veículo, não esquecendo que ainda existe o semirreboque.

Como esse cálculo ficaria muito difícil, já que cada mês tem variação em relação ao anterior, a sugestão é que você faça uma média.

Note que, no mês de maio de 2016, por exemplo, o veículo perdeu R$ 28.078,00 de seu valor. Isso é uma prova de que, de forma prática, os números são bem diferentes da teoria, e por isso você precisa ficar ligado.

CONCLUSÃO: DEPRECIAÇÃO DE VEÍCULOS

Apesar de saber que está muito difícil hoje em dia você conseguir embutir todos os custos no cálculo de frete, eu preciso te dizer o que está certo e o que está errado.

Se você tem dificuldades em entender por que no longo prazo você acaba tendo um caminhão ou uma frota sucateada, sem condições de reposição, talvez aqui esteja a resposta.

Por mais difícil que seja, repassar os seus custos aos seus clientes, meu papel aqui com você é realmente te mostrar todos esses custos.

Agora, se a decisão sua for de não repassar, pelo menos agora você está ciente de que o custo com depreciação de veículos existe.

 

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